UM ESTUDO DA PARÓDIA EM CARTA PRÀS ICAMIABAS

 

                                                Luiz Camilo Lafalce – Univ. Presbiteriana Mackenzie

 

 

Aquilo que herdaste de teus pais,

 conquista-o para fazê-lo teu.

 Goethe

 

 

 

Este trabalho corresponde a uma reflexão sobre um texto bastante conhecido: o capítulo Carta pras Icamiabas, de Mário de Andrade. Sobre ele muitos críticos já se debruçaram, desde a primeira publicação, havendo inclusive comentários analíticos do próprio autor, por exemplo, na correspondência que manteve com seu amigo Manu (Manuel Bandeira).

Entretanto, continua motivando reflexões, abrindo-se a sentidos múltiplos através do tempo.

No presente estudo, pretende-se pontuar aspectos relacionados à construção e sentido da paródia nesse capítulo especial da rapsódia Macunaíma.

É da obra Roteiro de Macunaíma, de Cavalcanti Proença, a seguinte citação:

 

A ‘Carta pràs Icamiabas’ é o ônus a que se sujeitam todos os escritores que, intencionalmente ou não, escreveram em linguagem de sua terra. Tem correspondentes nas Sextilhas de Frei Antão, de Gonçalves Dias, nos diálogos caprichados da primeira parte das Minas de Prata, de Alencar, no Cantar de Amor, de Manuel Bandeira ... (Proença, 1987: 173)

 

Assim inicia o crítico seu Comentário a respeito do capítulo IX da obra Macunaíma, escrita por Mário de Andrade em dezembro de 1926. Um prólogo que, em virtude de seu teor alusivo, não me parece de simples decifração: afinal, por que ônus a que se sujeitam? A que linguagem de sua terra se faz referência? Que implicações para a história da literatura brasileira traz esse comentário?Essas são algumas questões que, subjacentes neste ensaio, servem de ponto de partida para uma reflexão em busca de um sentido do discurso parodístico que, na voz do herói sem nenhum caráter, estrutura a carta.

Macunaíma, como se sabe,é obraconstruída a partir da bricolage de lendas indígenas, provérbios, clichês populares, referências à cultura urbana, e estilos narrativos, que nos revela não apenas a erudição de Mário, mas, em especial, sua maestria artesanal em processar o discurso cristalizado pela tradição, quer popular, quer acadêmica, dele extraindo o alumbramento de uma palavra primordial, buscando inaugurar, num discurso novo, uma nova terra ou uma nova visão da terra. Na figura do irreverente protagonista – Macunaíma (o Grande Mal) –, o herói da nossa gente, estaria, segundo o autor, a síntese de um suposto modo de ser brasileiro. Índio negro da selva amazônica, da tribo tapanhuma, nomeado Imperador do Mato Virgem, após engravidar a cunhã Ci, a Mãe do Mato, nosso herói vem a São Paulo a fim de recuperar seu talismã, a muiraquitã. Na cidade, escreve uma carta para as índias icamiabas (amazonas), suas súditas, para, no dizer do próprio Mário, “única e tão somente ‘(...) pedir dinheiro’, mas [s]orrateiramente, sub-repticiamente”, alegando o objetivo de “contar as coisas de São Paulo”. (Moraes, 2000: 359-360).

Saltam aos olhos as relações intertextuais que organizam o texto, reveladoras de um vasto repertório histórico-literário, bem como a ostensiva erudição lexical que surgem no texto elaborado pelo indígena já agora transfigurado em homem branco, muito à vontade no meio urbano paulista. Assim, o leitor que acompanha a carta, está na verdade lendo também outros discursos que lhe servem de modelo, entre os quais destacam-se: a carta de Pero Vaz de Caminha, a crônica-historiográfica (Pero de Magalhães Gândavo, Frei Luís de Sousa), a epopéia camoniana e a tradição estética clássico-parnasiana, que marcou com seu peculiar eruditismo a literatura brasileira finissecular. Aliás, é o próprio Mário quem afirma:

 

Não só copiei os etnógrafos e os textos ameríndios, mas ainda, na “Carta pras Icamiabas”, pus frases inteiras de Rui Barbosa, de Mário Barreto, dos cronistas portugueses coloniais e devastei a tão preciosa quão solene língua dos colaboradores da “Revista de Língua Portuguesa”. Isso era inevitável pois que o meu ... isto é, o herói de Koch-Grünberg, estava com pretensões a escrever um português de lei. (Fonseca, 330: 1997).

 

Examinemos, pois, alguns aspectos que chamam a atenção nessa confluência de vozes que compõem o discurso parodístico na Carta pras Icamiabas.

Em primeiro lugar, ressalta o contraste entre a linguagem popular utilizada pelo narrador nos outros capítulos e a linguagem no capítulo IX, o que deu margem a críticas desqualificadoras, quer assinalando a inverossimilhança da fala do herói, quer – como fez Raimundo Moraes – qualificando de plágio o referido texto.

Evidentemente, não se pode deixar de ler nessa carta também uma outra, a de Pero Vaz de Caminha ao rei D.Manuel – o primeiro documento escrito no Brasil, dando notícias do achamento da nova terra. Mas a relação entre os dois textos, responsável pela construção da paródia, é não apenas de convergência, mas também de oposição.

Os pontos de convergência são muitos. Quanto ao gênero são textos epistolares, mas não de teor íntimo e sim oficial. Além disso, ambos podem ser considerados fala inaugural, certidão de batismo: em Caminha, inaugura-se para o mundo civilizado europeu a exótica e promissora terra americana, o éden perdido finalmente encontrado, a terra de muito bons ares assim frios e temperados como os de Entre-Doiro-e-Minho, cujas Águas são muitas e infindas. De tal maneira é graciosa que, querendo aproveitá-la, dar-se-á nela tudo por bem das águas que tem.: a Telus Mater. (Valente, 13,v.:1975) . Macunaíma, por sua vez, inaugura para as distantes mulheres guerreiras do rio Nhamundá, apropriando-se da fala de Caminha, uma outra terra, a São Paulo moderna do início do século XX, boa cidade de São Paulo – a maior do universo, no dizer de seus prolixos habitantes (...) construída sobre sete colinas, à feição tradicional de Roma, a cidade cesárea, “capita” da Latinidade (...) cujas águas são magníficas, os ares tão amenos quanto os de Aquisgrana ou de Anverres (...) igual em salubridade e abundância (...) (Andrade, 102: 1977). Além disso, ambos os textos são descritivos, ricos em pormenores, versados em linguagem clássica – ou supostamente clássica – em que os missivistas buscam uma pretensa objetividade.

A relação de oposição entre as cartas, por outro lado, pode ser assim explicitada: a) em Pero Vaz de Caminha encontramos um súdito enviando notícias da nova terra a seu rei, D. Manuel, abrindo o texto com o solene Senhor. Macunaíma, por sua vez, é o rei – Imperator – que envia notícias da nova terra às súditas amazonas – agora com, o também solene, Senhoras; b) a Carta de Caminha é escrita no início do mês de maio, mais precisamente dia 1º, ao passo que a Carta pràs Icamiabas é de 30 de maio de 1926, um domingo, marcando, assim, uma bipolaridade a que, obviamente, podem ser emprestados vários sentidos. (Fonseca, 335: 1997); c) A Carta do Descobrimento é a palavra do civilizado europeu nomeando, a partir de sua visão de mundo, a terra primitiva e, ao contrário, em Macunaíma, temos um primitivo transfigurado pela civilização – a que hoje fazemos ponto de honra em pertencermos (Andrade, 96: 1977) – inaugurando o mundo civilizado para as indígenas, numa linguagem supostamente culta; d) nas palavras de Pero Vaz de Caminha, há a clara intenção de trazer os valores europeus ao mundo recém-descoberto e, em Macunaíma, ocorre justamente o oposto: exportar os novos valores urbanos – inclusive a linguagem – às súditas icamiabas. É o que se depreende, por exemplo, do excerto abaixo:

 

Nós, nos parece ilustres Amazonas, que assaz ganharíeis em aprenderdes com elas, as condescendências, os brincos e passes do Amor. (...) Como vêdes, assaz hemos aproveitado esta demora na ilustre terra bandeirante, e si não descuidamos do nosso talismã, por certo que não poupamos esforços nem vil metal, por aprendermos as coisas mais principais desta eviterna civilização latina, por que iniciemos quando fôr do nosso retôrno ao Mato Virgem, uma série de milhoramentos, que, muito nos facilitarão a existência, e mais espalhem nossa prosápia de nação culta entre as mais cultas do Universo. E por isso agora vos diremos algo sôbre esta cidade, pois que pretendemos construir uma igual nos vossos domínios e Império nosso. (Andrade, 98 e 102: 1977)

 

Mas é preciso apontar também outras apropriações presentes na fala do herói, como, por exemplo, de cronistas portugueses, de Luís Vaz de Camões e de clássicos latinos.

No terceiro parágrafo da Carta encontramos, quase literalmente, os versos da estrofe 37 do Canto V de Os lusíadas: Nem cinco sóis eram passados que de vós nos partíramos, quando a mais temerosa desdita pesou sôbre nós. (Andrade, 95:1977) Mais adiante, o herói aproveita-se do clichê ovidiano “sub tegmine fagi”, faz referência à gentil declamadora Safô na ilha rósea de Lesbos. Numa alusão a Pero de Magalhães Gândavo – e também a Manuel Botelho de Oliveira –, faz comentários, ao modo fino dos cronistas, a respeito do ar, da água e da área da cidade de São Paulo, informando-nos que de três AAA se gera espontaneamente a fauna urbana[1].

O modelo literário finissecular espelha-se no abuso da linguagem erudita levada ao paroxismo, num estilo logorrêico, verborrágico, que termina por tornar o texto da carta extremamente opaco, potencializando múltiplas interpretações. Leiam-se, a título de exemplo, os excertos abaixo:

                       

I- Sobre a visão que os paulistanos têm das icamiabas:

 

É bem verdade que na boa cidade de São Paulo – a maior do universo, no dizer de seus prolixos habitantes – não sois conhecidas por “icamiabas”, voz espúria, sinão que pelo apelativo de Amazonas; e de vós, se afirma, cavalgardes ginetes belígeros e virdes da Hélade clássica (...)

 

II- Sobre as lagostas:

 

(...) uns monstros encantados, senhoras Amazonas!!! Duma carapaça polida e sobrosada, feita a modo de casco de nau, saem braços, tentáculos e cauda remígeros, de muitos feitios; de modo que o pesado engenho, deposto num prato de porcelana de Sêvres, se nos antoja, qual velejante trirreme a bordeisjar água de Nilo, trazendo no bojo o corpo inestimável de Cleópatra.

 

III- Sobre as mulheres:

 

Que beldades! Que elegância! Que cachet! Que degagé flamífero, ignívomo, devorador.

(Andrade, 95, 97, 98: 1977)

 

Esse pedantismo ostentado por Macunaíma, marca da tradição cultural brasileira, entretanto, acaba adquirindo uma feição cômica, quer pelo exagero no uso de vocábulos e expressões eruditas, quer pelas excessivas alusões literárias que faz. A retórica verborrágica impõe-se nitidamente como um instrumento de status – e poder –, e o texto, em detrimento de sua função referencial, acaba por assumir não só uma função anestésica, por força da estranha sonoridade, mas também, como nas cantigas populares, desvela impulsos inconscientes, aspecto destacado pelo próprio Mário de Andrade. (Moraes, 360:2000)

Nesse sentido é que podemos ler os equívocos paronomásticos, os atos falhos da fala do herói, impregnados de conotação sexual, espelhando, inconscientemente, as inúmeras referências às damas de São Paulo e sua ardida chama:

 

Bem quiséramos impormos à nossa ardida chama uma abstinência, penosa embora, para vos pouparmos despesas; porém que ânimo forte não cedera ante os encantos e galanteios de tão agradáveis pastôras! (Andrade, 98: 1977)

 

Assim, durante o texto, troca feminina por fescenina, versículos da Bíblia por testículos da Bíblia, bordejar por bordeisjar ... Mas os equívocos se multiplicam, trazendo registros lingüísticos que fogem ao padrão culto, como plátina (aglutinando platina e pátina), macróbio no lugar de micróbio, hospitalares substituindo hospitaleiros, aperceber em vez de perceber e o uso do infinitivo sempre flexionado: quiséramos impormos, puderam acabarem...

A fina superfície clássica e erudita que reveste o texto de Macunaíma vai sendo então minada por esses registros fálhicos. A presença dos inúmeros vocábulos de origem indígena que se espalham pela carta, apontados por Fonseca (Fonseca,338: 1997), inclusive com redundante presença – Icamiabas, muiraquitã, cacau, tapires, candirus, Tietê, paraibanos, paraguaios, saúva, Butantã, jacarandá, uirauaçus, igara, Ci, Macunaíma – compõe também, juntamente com os equívocos, essa outra voz que se quer anulada por força da cultura civilizada dominante.

Essa tensão entre as vozes – aquela que se deseja artificialmente incorporar e a outra voz que se faz ouvir pelos disparates, pela hipertrofia da linguagem erudita, pela presença da língua primitiva – vai tecendo o discurso parodístico que se estrutura na carta.

Poderíamos, neste momento, concluir que a paródia – o contra-canto – empresta-se para um ato de fala intencionalmente subversivo, na medida em que põe em cena o modelo, imitando-o para ridicularizá-lo. Na voz de Macunaíma, o autor estaria contestando, satirizando, negando a tradição da cultura brasileira marcadamente influenciada por valores estético-ideológicos europeus.

Entretanto, parece-me conveniente refletir um pouco mais sobre o sentido da paródia, com base nas observações de Linda Hutcheon. Segundo a pesquisadora,

 

A maioria dos teóricos da paródia remontam a raiz etimológica do termo ao substantivo grego parodia , que quer dizer “contra-canto”, e ficam-se por aí. (...) No entanto, para em grego também pode significar “ao longo de” e, portanto, existe uma sugestão de um acordo ou intimidade, em vez de um contraste. (Hutcheon, 1989: 47-48)

 

Dessa perspectiva podem-se ler, na Carta pras Icamiabas, dois discursos que, em dissonância, aparentemente são excludentes, marcando rupturas. Se, intencionalmente, Mário desejou rejeitar o modelo, o fato de debruçar-se sobre o discurso parodiado acaba pondo-o em cena num outro tempo e sob um outro ponto de luz, o que significa recuperá-lo. Estruturando-se a carta a partir dele, e somente a partir dele tendo sua razão de ser, acaba por edificar uma homenagem a ele, ainda que levada a efeito de “nariz torcido”. Nesse sentido, os dois discursos instituem um jogo de mútua dependência, e o texto de Mário termina por reverenciar a tradição, não cristalizando-a, mas dando um passo à frente.

Esse processo corresponde, então, à conquista da herança que a tradição significa: o autor, aprendendo e apreendendo o código em que se formou, sujeita-se ao ônus a que faz referência Cavalcanti Proença, escrevendo em linguagem de sua terra, assumindo-se, entretanto, como sujeito da história literária brasileira.

Mas assinalar que o autor assume-se como sujeito de seu discurso no registro transfigurador, dando um passo à frente, não implica a aceitação de um conceito de evolução aperfeiçoadora.

E nesse ponto concordamos com Linda Hutcheon quando, assinalando a sua impossibilidade de aceitar o conceito de evolução literária subjacente à perspectiva dos formalistas russos, indaga:

 

As formas de arte mudam, mas evoluirão realmente ou melhorarão de alguma forma? (Hutcheon, 1989:53)

 

 

Referências Bibliográficas:

 

FONSECA, Maria Augusta. A carta pras icamiabas. In: LOPES, Telê Porto Ancona (org.). Mário de Andrade. Macunaíma, o herói sem nenhum caráter. Edição crítica. Madri: ALLCA XX, 1997. p. 329-345.

HUTCHEON, Linda. Uma teoria da paródia. Lisboa: Edições 70, 1989.

MORAES, Marcos Antonio de. Correspondência. Mário de Andrade & Manuel Bandeira. São Paulo: Edusp – IEB, 2000. p.359-360.

PROENÇA, M. Cavalcanti. Roteiro de Macunaíma. 6.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.p.177-178.

VALENTE, José Augusto. A certidão de nascimento do Brasil. A carta de Pero Vaz de Caminha. São Paulo: Fundo de Pesquisas do Museu Paulista da USP, 1975.



[1]A referência à obra de Botelho – Ilha da Maré – consta do ensaio de Maria Augusta Fonseca.